Gravidez na adolescência: hoje e “antigamente”
No último dia 31, foi veiculada pela mídia internacional a notícia do “avô mais jovem do Reino Unido”. Um jovem galês de apenas 29 anos teria se tornado avô naquela semana, após sua filha de apenas 14 anos de idade dar à luz uma criança. O pai do bebê também é bastante jovem: tem apenas 15 anos.
Notícias como essa causam certa comoção, pois, mesmo para aqueles que não possuem filhos ainda, não é difícil imaginar que criar uma criança não é tarefa das mais fáceis, sobretudo quando tal tarefa está a cargo de outras duas “crianças”. Mas por que nos consternamos ao imaginar o desafiador destino que aguarda esses jovens, quando nossas “bisas” e “bisos” e até nossos avós casavam-se e tinham seus rebentos em média na mesma faixa etária?
Legenda: Corpo de uma mulher aos nove meses de gestação. Podemos observar as grandes mudanças físicas sofridas pelas gestantes, as quais requerem um organismo biologicamente estruturado. Por isso, dependendo da idade da jovem, a gestação pode ser considerada de risco pelos médicos. Por: Miki Yoshihito. Atribuição CC BY 2.0
Parece um tanto ingênua a indignação de algumas pessoas, que, munidas da eterna rivalidade entre gerações, avaliam com horror e perplexidade uma situação como essa, julgando um absurdo que pessoas tão jovens tenham de encarregar-se da criação de uma criança. Tal indignação não é sem razão: apenas seu fundamento é que está desencontrado.
Na época em que nossos antepassados se casavam e constituíam família cedo, não se tinha a “ideia” de adolescência. Não que as pessoas naquele tempo não fossem adolescentes, no sentido orgânico da palavra; ou seja, não que elas não passassem por aquele período de desenvolvimento do corpo, com crescimento acelerado, mudanças físicas bruscas, produção de hormônios sexuais, etc. Mas a adolescência não existia socialmente. Isso significa que, há algum tempo, ou éramos crianças ou éramos adultos. Não existia esse meio-termo chamado adolescência.
Inclusive, tão logo as meninas tornavam-se biologicamente prontas para ter filhos, aquelas de melhor condição social eram introduzidas na sociedade (e apresentadas a futuros pretendentes) por meio de seu baile de debutante. Assim, a partir daquela celebração elas deixavam de ser vistas socialmente como crianças e passavam a ser consideradas aptas para cuidar de uma casa, do marido e dos filhos, tornando-se mulheres da noite para o dia.
Em praticamente todas as sociedades, sempre foram comuns rituais de passagem por meio dos quais os jovens passam a ser encarados como iguais aos outros adultos de sua comunidade, com os mesmos direitos e deveres que aqueles. Em sociedades tribais, mesmo em dias atuais, é frequente o menino ser submetido a uma prova, como a caça de um animal, para demonstrar ser capaz de cumprir com as responsabilidades e os direitos adquiridos perante seu povo.
No Brasil, os indígenas no Parque do Xingu praticam o ritual da Moça Nova, que tem a finalidade de iniciar a menina-moça à vida adulta. A partir da primeira menstruação, cada menina é conduzida para um local reservado, construído para esse fim, onde permanecerá durante três meses. Longe dos demais, a menina-moça estabelecerá contato apenas com a mãe e com a tia paterna durante esse período e deverá dedicar-se ao aprendizado de afazeres femininos, como a fiação do algodão e o preparo de cestas, redes e esteiras.
Mas o que mudou de lá para cá que torna o fato de alguém ser avô aos 29 anos algo passível de indignação e pena?
Segundo alguns antropólogos, atualmente, na medida em que o tempo de estudo aumenta, adiando a entrada dos jovens no mercado de trabalho, a adolescência está, consequentemente, se ampliando. Nesse sentido, de modo geral, enquanto o adolescente depende economicamente de seus parentes, espera-se dele apenas o cumprimento de seus deveres acadêmicos, muito embora ele seja atendido por muitos dos direitos comuns aos adultos com quem convive. É evidente que há jovens que desde muito cedo têm de trabalhar para ajudar (senão manter) sua família. Mas, de forma geral, os valores preconizados pela sociedade ocidental defendem o compromisso, em primeiro lugar, com o desempenho escolar.
Portanto, em vez de atribuirmos a carga de responsabilidades de uma vida adulta a pessoas que ainda estão se formando intelectual, cultural e emocionalmente, que ainda não dispõem de qualificação técnica para exercer uma atividade profissional necessária para obter seu sustento, em nossa sociedade estendemos o período de cuidados paternos, visando, dessa forma, possibilitar a aquisição de todos esses atributos por esses jovens, de modo a qualificá-los para uma vida adulta, para que esta, de preferência, não seja tão penosa como a daqueles que o proveram.
Assim, quando nos deparamos com notícias como essas, que nos informam sobre elevados índices de gravidez na adolescência em diversos países e sobre casos como o desses jovens galeses, nossa indignação remete ao fato de que eles não precisavam passar pela triste experiência de pular uma importante etapa de seu desenvolvimento humano para assumir tamanha responsabilidade. Não se espera, socialmente, ao contrário de algumas décadas atrás, que esses jovens tenham de assumir um papel para o qual, provavelmente, ainda não estejam preparados.
Legenda: A responsabilidade incumbida aos pais vai além do mero sustento ou da exigência de formação acadêmica dos filhos. Ela se estende à introdução do jovem na sociedade, segundo os hábitos, costumes e valores daquela. Por For the future. Atribuição CC BY-ND 2.0.
Talvez, casos como esse e outros tantos, com base nos valores preconizados em nossa sociedade, sejam uma consequência da descompensada proporção entre direitos e deveres atribuídos aos nossos jovens. Talvez, ao atribuir-lhes maiores responsabilidades sobre suas ações, fizéssemos com que atravessassem essa etapa com o real amadurecimento necessário para enfrentar as adversidades da vida adulta, sem a necessidade de assumi-la de forma “emergencial”. Talvez essa etapa destinada ao crescimento dos nossos jovens não esteja sendo bem aproveitada para a sua instrução e adequação ao papel que deverão desempenhar, consistindo, na realidade, em um prolongamento da infância até os vinte anos de idade.
Por Jaqueline Santos.
Fonte:http://blog.educacional.com.br/blog_sociologia/2011/08/02/gravidez-na-adolescencia-hoje-e-antigamente/#more-414
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