No dia 24 de agosto, foi veiculada pela mídia nacional a notícia de que jovens com idades entre 12 e 16 anos matavam aula em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, para consumir drogas e praticar sexo.
Essa notícia vem em consonância com o penúltimo post publicado no blog de Sociologia sobre gravidez na adolescência, no qual levantávamos algumas questões em relação aos direitos e responsabilidades dos jovens de hoje e de “antigamente”.
A polícia de Campo Grande abriu um inquérito para apurar quais eram os estudantes que participavam dos encontros, o que faziam neles e se havia o envolvimento de adultos no caso. Para quem não sabe, a prática de sexo com menores de 14 anos, ainda que consensual, é considerada estupro, e se ocorre com o conhecimento e apoio de adultos, pode ser julgada como prostituição e corrupção de menores.
Apurados os responsáveis pelo Congresso do Bulimento, como se autodenominava o grupo de jovens envolvidos, os menores serão encaminhados para o cumprimento de medidas socioeducativas, e os adultos responderão a processos judiciais pelos crimes relacionados anteriormente.
Contudo, duas questões pairam no ar: como é que se chegou a isso e o que fazer para remediar a situação?
Legenda: Há um tempo, houve quem se escandalizasse com um singelo andar de mãos dadas em público. Aparentemente, tais amarras morais ficaram mais frouxas com a modernidade. Contudo, podemos verificar que na atualidade tem-se confundido liberdade com libertinagem. Por: YAXZONE. Creative Commons. Atribuição 2.0 Genérica (CC BY 2.0).
Esse tipo de acontecimento não é novidade. Em julho deste ano, por exemplo, foi noticiado pelo G1 que alunos de uma escola pública dos EUA filmaram dois estudantes praticando sexo oral dentro da sala de aula, enquanto outros filmavam com seus celulares, tendo, posteriormente, colocado o vídeo no Youtube.
Em 2009, foi noticiado por inúmeros canais de comunicação o vídeo de uma aluna de apenas 13 anos de um colégio público do Paraná no qual ela fazia sexo com outros dois estudantes em um dos banheiros da instituição.
Certamente, podemos apontar em todos esses casos o fato de os pais não saberem ou não se preocuparem em saber com quem os filhos andam, por onde andam e o que fazem. O caso do Paraná e dos EUA é ainda mais grave, pois ocorreram em instituições públicas de ensino.
A escola tem a obrigação de saber o que ocorre sob seu teto: se alguns alunos matam aula, se agridem colegas, se depredam o patrimônio ou consomem drogas. Se a instituição sabe do que ocorre e não notifica os pais prontamente, erra. Se notifica os responsáveis e estes não tomam providências, erra novamente ao não comunicar o conselho tutelar. Por outro lado, se a escola comunica o conselho e este, por sua vez, também não toma as medidas cabíveis, então o cenário de displicência saiu do âmbito paternal, culminando no poder público.
Quando se trabalha com crianças e adolescentes, deve-se permanecer vigilante sob todos os aspectos, porque os adultos nessa relação (pelo menos legalmente) são pais e educadores, e a eles será atribuída a responsabilidade. Além disso, atentar para detalhes comportamentais de crianças e adolescentes pode levar à descoberta de abuso de drogas, violência física e sexual, depressão, entre outros sérios problemas.
Em geral, em situações desse caráter, constatam-se dois indícios: o primeiro deles é a omissão paterna, seja na educação de seus filhos quanto às práticas sexuais, no que se refere às suas implicações na vida desses jovens, seja nas responsabilidades intrínsecas ao ato, tudo isso aliado à ignorância dos responsáveis quanto ao cotidiano de seus filhos, sem preocupar-se em verificar junto à escola a frequência, ou observar o comportamento e companhias deles.
Crianças e adolescentes necessitam de um pai e uma mãe, não de dois irmãos mais velhos ou de um casal de amigos que, por coincidência, moram junto deles. É necessário, sim, impor limites, fiscalizar, acompanhar tudo o que fazem; estabelecer horários, rotinas e responsabilidades a serem cumpridas, senão esses jovens demorarão a compreender o seu papel em sociedade e os reflexos de suas ações e escolhas sobre as vidas dos demais e sobre as suas também. Talvez só o apreendam quando for tarde demais - e uma gravidez na adolescência certamente é um “tarde demais”.
Legenda: Se “antigamente” os jovens eram desde muito cedo treinados para exercerem papéis dentro da sociedade e de sua família, com responsabilidades semelhantes às dos adultos, na atualidade, muitos deles apenas desfrutam os direitos da vida adulta, sem qualquer responsabilidade sobre seus atos. Por: Jason Pratt. Creative Commons. Atribuição 2.0 Genérica (CC BY 2.0).
O segundo indício é o da falha institucional, de diretores e conselheiros que não tomaram o devido conhecimento e as providências quanto a esses fatos. É necessário um trabalho mais próximo entre instituições de ensino e conselho tutelar, para que casos como esses sejam percebidos antes de maiores implicações.
Durante os encontros do Congresso do Bulimento, esses jovens consumiam drogas. Quantos deles já se tornaram dependentes? Aquelas garotas praticavam sexo com diversos parceiros simultaneamente. Quantas delas poderiam ter engravidado ou contraído doenças?
Quanto às medidas para remediar o que ocorreu, será necessário um acompanhamento de perto com psicólogos e médicos, a fim de verificar os danos dessas práticas sobre o organismo desses jovens - tanto quanto ao vício e às DSTs como quanto aos problemas comportamentais e afetivos que possam ter levado a tais práticas -, assim como um intenso trabalho de socialização e educação, para que esses alunos conheçam as consequências de seus atos para além do imediatismo do prazer hedonista.
Talvez o primeiro passo para reverter (ou ao menos amenizar) o quadro de jovens iniciando a vida sexual cada vez mais cedo, com múltiplos parceiros, seja conscientizar as garotas envolvidas quanto aos inúmeros problemas de uma gravidez na adolescência.
Em nosso próximo post, comentaremos alguns índices sobre o assunto. Até lá!
Por Jaqueline Santos
Referências
RAFAEL, Hélder. Polícia diz que oito adolescentes praticavam estupros em MS. G1, Mato Grosso do Sul, 26 ago. 2011. Disponível em:
MOREIRA, Fernando. Galês é avô aos 29 anos: recorde no Reino Unido. O Globo, 31 jul. 2011. Disponível em:
BARROS, Márcio. Trio filma sexo no banheiro do Colégio Estadual. Paraná online, 23 set. 2010. Disponível em:
Fonte:http://blog.educacional.com.br/blog_sociologia/2011/09/13/sexualidade-na-adolescencia/
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